Um voo doméstico virou notícia nesta semana não por atraso ou cancelamento, mas por um motivo mais delicado, a saúde do próprio tripulante. O episódio, que terminou sem consequências graves, chamou atenção para uma questão que vem ganhando espaço nos bastidores da aviação brasileira, o desgaste físico e mental de quem está no comando dos aviões.
O que aconteceu
O voo AD2966 da Azul, que ligava Curitiba a Viracopos, em Campinas, precisou realizar um pouso de emergência depois que o copiloto apresentou sinais de convulsão ainda durante o trajeto. Um médico que viajava como passageiro prestou atendimento ao profissional dentro da própria aeronave.
A pista de Viracopos foi reservada para receber o avião com prioridade, e o pouso ocorreu sem intercorrências, poucos minutos depois do acionamento da emergência. Em nota, a companhia afirmou que o voo seguiu normalmente e pousou em segurança no destino previsto.
Depois de avaliado pela equipe médica do aeroporto, o copiloto foi considerado estável e liberado ainda na mesma noite.
Um sintoma de um problema maior
O caso de Viracopos não é isolado. Ele se soma a um conjunto de episódios recentes envolvendo mal-estar de tripulantes durante voos, e reacende uma discussão que o setor vem enfrentando há tempos, a fadiga crônica de pilotos e comissários.
Um levantamento interno do sindicato da categoria mostrou um retrato preocupante: a grande maioria dos profissionais já sentiu cansaço extremo sem repassar essa informação às companhias aéreas, boa parte não se sente à vontade para fazer esse tipo de relato, e mais da metade admitiu já ter cochilado durante o serviço, ainda que por poucos segundos. A pesquisa ouviu milhares de pilotos e comissários em todo o país.
Esse cansaço acumulado acontece justamente em um momento de forte crescimento da aviação nacional. O Brasil bateu recorde de passageiros transportados, superando pela primeira vez os números registrados antes da pandemia. Só no último carnaval, o setor teve o melhor desempenho para o feriado em duas décadas e meia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o burnout resulta do estresse crônico no ambiente de trabalho quando ele não é gerenciado de forma adequada, e se manifesta por meio de exaustão, distanciamento em relação às tarefas e queda no desempenho profissional. É exatamente esse cenário que especialistas apontam como pano de fundo para episódios como o de Viracopos.
Regulação em pauta
Diante da repercussão de casos semelhantes, o Ministério Público do Trabalho determinou um prazo para que a Anac revise a norma que trata do controle de fadiga entre pilotos. A cobrança também alcança os sindicatos patronais do setor, que precisam se posicionar sobre o uso de substâncias psicoativas por parte dos tripulantes.
Enquanto a norma não é atualizada, episódios como esse servem de alerta para a necessidade de um olhar mais atento à rotina de quem trabalha na cabine de comando.
O que o passageiro pode fazer diante de um pouso de emergência
Situações como essa, embora raras, podem gerar dúvidas entre os passageiros. Alguns pontos valem ser lembrados:
Segurança em primeiro lugar. Um pouso de emergência é um procedimento padrão para lidar com imprevistos, e não significa necessariamente risco à integridade dos ocupantes.
Direitos em caso de impacto na viagem. Se o desvio de rota causar atraso significativo, perda de conexão ou outros transtornos, o passageiro pode ter direito a assistência material e, em alguns casos, a compensação, conforme prevê a Resolução 400 da Anac.
Guarde os registros. Cartão de embarque, comunicações da companhia e horários de pouso e desembarque ajudam a comprovar eventuais prejuízos, caso seja necessário buscar reparação depois.
Mesmo quando tudo termina bem, como no caso de Viracopos, episódios assim reforçam a importância de as companhias aéreas cuidarem da saúde de suas equipes, um cuidado que, no fim das contas, também protege quem está sentado na cabine de passageiros.
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Fonte: CNN Brasil
