Se você já achou passagem aérea cara no Brasil, prepare-se: o cenário pode piorar. A IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo) reuniu lideranças do setor no Rio de Janeiro e deixou um recado direto aos passageiros brasileiros — dois problemas tipicamente nacionais devem pressionar os preços dos voos nos próximos anos.

O alerta que veio do Rio de Janeiro

A reunião anual da IATA trouxe à tona uma discussão que vai além dos bastidores do setor aéreo. Segundo dados apresentados no evento e apurados pela CNN, dois fatores internos ao Brasil foram apontados como os principais responsáveis pela possível alta nas tarifas: a reforma tributária e a judicialização excessiva.

Nenhum dos dois é novidade. Mas os números colocados na mesa são concretos o suficiente para exigir atenção de quem viaja — ou pretende viajar — de avião.

O impacto do novo IVA

O coração do problema tributário está no IVA (Imposto sobre Valor Agregado), que deve ser fixado entre 26% e 27% com a nova legislação. Para as companhias aéreas, isso representa um aumento direto de custos que, na visão do setor, será inevitavelmente repassado ao passageiro.

Os números apresentados pela IATA são diretos:

Tipo de vooPreço atualPreço estimadoVariação Doméstico (por trecho)R$ 650R$ 800+23% Internacional (por trecho)US$ 740US$ 935+26%

Uma passagem doméstica de ida e volta que hoje custa em torno de R$ 1.300 pode passar a custar R$ 1.600. Para um voo internacional, a conta sobe ainda mais: o que hoje sai por cerca de US$ 1.480 pode chegar a US$ 1.870 — o equivalente a aproximadamente R$ 9.350 considerando o câmbio atual.

O que diz o governo

O Ministério da Fazenda contesta a projeção. A argumentação oficial é que as companhias aéreas estariam desconsiderando a possibilidade de aproveitamento de créditos tributários nas suas compras — o que reduziria o impacto real do novo imposto sobre os custos operacionais.

O debate, portanto, está em aberto. Como resumiu o jornalista Fernando Nakagawa, que acompanhou o evento: "O fato é que a confusão está instalada, o debate está instalado e as empresas aéreas estão reclamando da reforma tributária."

O outro vilão: a indústria dos processos

A reforma tributária divide holofotes com um problema que já custa caro há anos: o volume absurdo de processos judiciais movidos por passageiros contra as companhias aéreas no Brasil.

A IATA apresentou uma comparação que ilustra bem a dimensão do problema:

PaísProporção de processos por passageiro Brasil1 para cada 227 passageiros Estados Unidos1 para cada 1.200.000 passageiros

Essa diferença não é pequena — é de mais de 5.000 vezes. E ela tem custo: segundo a entidade, o Brasil gasta mais de R$ 1 bilhão por ano com advogados e tribunais no setor aéreo, o que já eleva o preço das passagens entre 3% e 5% apenas para cobrir essas despesas.

John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas, relatou ao jornalista que o problema está se agravando — e que a inteligência artificial está acelerando o volume de demandas, facilitando a abertura de processos em massa. "Isso impacta todos os brasileiros que estão pagando essa conta", afirmou Rodgerson.

O paradoxo do passageiro brasileiro

Aqui está o ponto mais delicado: o passageiro brasileiro é ao mesmo tempo vítima e co-responsável por parte dessa equação.

Recorrer à Justiça é um direito legítimo — especialmente quando se trata de atrasos, cancelamentos, overbooking ou extravio de bagagem. O problema é quando esse sistema é usado de forma abusiva ou industrial, gerando custos que são distribuídos para todos os passageiros na forma de tarifas mais altas.

A boa notícia é que existem caminhos para resolver problemas com companhias aéreas sem precisar judicializar. Em muitos casos, a indenização pode ser obtida de forma mais rápida e sem custo — inclusive com empresas especializadas em recuperação de direitos de passageiros, como a MOVA.

O que fazer diante desse cenário

Com preços potencialmente maiores à frente, algumas estratégias se tornam ainda mais importantes:

Antecipe suas compras. Passagens compradas com meses de antecedência costumam ser significativamente mais baratas do que as adquiridas às vésperas da viagem.

Compare rotas com conexão. Voos diretos têm conveniência, mas podem custar consideravelmente mais. Uma escala pode compensar dependendo do destino.

Fique atento aos seus direitos. Atraso superior a 4 horas, cancelamento sem aviso prévio adequado e overbooking geram direito a assistência e, em muitos casos, a indenização — sem necessidade de processo judicial.

Documente tudo. Em caso de problemas, guarde comprovantes, e-mails e registros do voo. Isso agiliza qualquer processo de reembolso ou compensação.

O preço de voar no Brasil

O Brasil já é um dos países onde voar é proporcionalmente mais caro em relação à renda da população. A combinação de alta carga tributária, infraestrutura onerosa e litigiosidade elevada cria um ambiente que pressiona permanentemente as tarifas — e os passageiros pagam a conta.

A reforma tributária pode ou não gerar o impacto que o setor projeta. Mas o debate deixou claro que voar mais barato no Brasil depende de mudanças sistêmicas que vão além da escolha do voo mais em conta no comparador de passagens.

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Fonte: CNN — reportagem de Fernando Nakagawa com base na reunião anual da IATA, realizada no Rio de Janeiro. Valores em reais calculados com dólar a R$ 5,00. Estimativas podem variar conforme câmbio e política das companhias.